quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Utopia

Nascemos e confundimos tudo. Mexemos com tudo. Nosso umbigo fica intacto. É fácil saber quando se olha para ele todos os dias. Difícil ver os olhos. Trazem muitas conclusões. Parí-las dói muito. Há que se evitar pensar. Ou sentir. Tentar passar ileso. E ir embora. Com glórias. E um peito vazio. Alguns chamariam de heresia. Desperdício, talvez. Eu digo que é sabedoria. Daquelas que jogam no nariz da gente. E, mesmo assim, não se aprende.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sem ação

Parado entre um ponto e outro. Rodeado por uma multidão. Aos pés de mãos santificadas. O verbo, carne do início do mundo. Cerne de uma sentença.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O dom

Perdi. Pela janela vi que não caiu na casa do vizinho. Procurei entre os degraus da minha rua. Desempilhei os cacos da noite do Bairro. Virei o Adamastor de cabeça para baixo. Talvez na Ribeira. Ou no horizonte da minha varanda. Acho mesmo que se foi pelo Tejo. Levou mais do que um pedaço de mim. Deixou um espaço enorme. Que eu esqueci como preencher.

sábado, 26 de junho de 2010

Junina

Em Lisboa, a lua não tem vergonha de entrar pela janela, nua. Noiva dos arraiás de São João. Joga-se aos meus pés, dentro da minha sala. Safada. Pode vir. Eu é que não saio daqui. Tenho medo de mim.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Falta de sorte

O azar batia à sua janela. Nunca o deixou entrar. Mas sente-se muito sozinha, às vezes. E ele nunca desiste.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um dia entre o céu e a terra

É o posto. E o convexo. Um trago. Cabeça inclinada. Nada. Tem sentido. Vivo. E não relaxo. Acho. Por onde ir.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Rua das Janelas Verdes

Há dias esperava que ele aparecesse. E se estivesse errada? Revia suas palavras. Refazia o caminho indicado. Não poderia ser mais fácil: era a única janela vermelha. No décimo dia, entendeu. O amor de sua vida fora perdido para o destino. Ele era daltônico.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem gelo, por favor

Sábado, sol. Na mão, o copo cheio. Na boca, outra. Presa. Colo certo. Quente. Enjaulada entre braços. Conduzida. A boca ainda. Pernas? Sim, tenho. Por quanto tempo. Mais um quarteirão. Nuca. Olhos. Portão. E boca. O toque na orelha. Me dá a chave do salão? Escadas. Poucas. Isolados. Seu gosto. Puro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

SOS

Então tive que me submeter ao gosto das despedidas e seus detalhes salgados. Pitadas da âncora que me prende ao mundo. O que é esse monstro com o qual me deparo toda vez? Velho conhecido, com quem nunca me acostumo. Fico presa ao pé da mesma cama enquanto entendo a existência das outras cores. Hipnotizada, levanto voo. Sem nunca deixar esse planeta. Aquele que sou eu e mais ninguém. Um ponto escuro no buraco negro de um universo que não existe.