quinta-feira, 14 de agosto de 2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pela boca

- Que é isso?
- Comida.
- Tem certeza?
- Come e não reclama.
- Mas tem cheiro de chulé!
- Tapa o nariz.
- O que tem aqui?
- Sopa.
- De que?
- É melhor você ficar quieto e comer.
- Senão?
- Eu tiro o seu prato e você vai passar fome.
- Não sei o que é pior.
- Você é quem sabe.
- Não tem outra coisa?
- Já falei, não me enche!
- Quem sabe um resto do guisado da mamãe?
- Não se atreva a tocar nessa geladeira!
- O que aconteceu com a pensão?
- Fechou.
- Gostava tanto da comida da Dona Candinha...
- Você se acostuma.
- A esse troço cinza?
- É a minha especialidade. Sopa de miúdo.
- Eca! Não como miúdo de boi de jeito nenhum!
- Quem falou que é de boi?
- Cadê o Alfredo?
- Fugiu.
- Você não teria coragem!
- Tô perdendo a minha paciência!
- Logo o Alfredo, tão bonzinho.
- Chega! Acabou sua chance.
- Mas eu tô com fome...
- Eu avisei.
- E amanhã, o que vai ter?
- Sopa de miúdo.
- Mas eu não vou conseguir comer!
- Não se preocupe. Você não vai precisar.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Separação

Ficou olhando por alguns minutos todos aqueles exemplares. Depois de horas carregando tralhas e caixas de um lado para o outro, deteve-se diante da estante. Parecia um recorte no tempo. Tudo o que separou, guardou e lacrou ficou em suspense. O que fazer com os livros?

Lembrou-se do dia em que as prateleiras foram colocadas ali. Caixas que moravam há tempos no fundo do quarto finalmente se abriram, cada vida foi encontrando seu canto, até que não sobrou nem um pedaço de ar, nem um vazio. Os que chegavam depois acabavam empilhados em cima dos outros, que resistiam a ceder seus lugares. Mas eles foram se misturando com o tempo, criando uma espécie de sociedade anarquista. Ali, todos eram importantes, até mesmo aqueles que encontravam irmãos gêmeos.

Havia os que tinham dedicatória, algumas ele mesmo escreveu. Outros sequer abriu, mas eles gritavam tanto nas livrarias e nos sebos que ele os levou para casa. 

Não poderia separá-los, era um sacrilégio só pensar nisso. Não era o caso de provocar tanta tensão naquele ambiente. As lombadas encostavam-se umas nas outras. As mais velhas apoiavam-se nas mais novas, que se resignavam com carinho. Eram muias cores, tamanhos e formatos, o que só ajudava a completar aquele quadro harmônico e perfeito. Não, não desejava essa dor a mais ninguém.

Pegou um papel rasgado no chão, o hidrocor que usava para identificar as suas caixas e escreveu um bilhete, que deixou pregado na porta. Por mais que doesse deixá-los, sabia que era a única solução. Olhou a estante pela última vez antes de sair. Acenou com uma reverência, um misto de respeito e inveja. Bateu a porta e nunca mais voltou.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Rasif


E no dia 14 tem o tão esperado lançamento do Rasif - mar que arrebenta, o novo livro de contos do Marcelino Freire, que conta com gravuras lindíssimas de Manu Maltez. É literatura imperdível, é para ter, ler, devorar, porque é bonito demais, é gostoso do tipo que não dá para largar até acabar de ler e depois também.

O lançamento será no Centro Cultural b_arco, ali na Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426, quase chegando na escada da Teodoro, a partir das 7 da noite. Bora prestigiar o que é nosso e é bom.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Coisas de Anna

Essa eu adoro. Um amigo está comendo, te oferece. Você aceita e justifica:

- Não posso ver defunto sem chorar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desculpas não aceitas

Escrever uma palavra depois da outra não te redime dos seus erros. Frases todo mundo faz.

Crise

- Estou tão só...
- Porque quer.
- Não é verdade.
- Eu sei que é.
- Não encontrei quem eu queria.
- É que esse alguém não existe.
- Mentira.
- Você é que não quer acreditar.
- Não posso.
- Você sabe que pode.
- Mas perde a graça.
- Eu sei.
- Então eu não quero.
- Não é uma questão de querer.
- Eu posso escolher.
- Se sentir só?
- Prefiro assim.
- Então não reclama.
- Me deixa!
- Deixo. Adeus.

sábado, 2 de agosto de 2008

O roubo do Munch

Gritei. Mas não ouvi nenhum som. Tentei de novo, dessa vez mais alto. Sem qualquer ruído. Levei as mãos ao pescoço, como se quisesse espremer o grito tal qual o suco de uma fruta. Nada. Meu coração batia ao ritmo das marchas militares e o suor desenhava pelo meu corpo o Rio Amazonas com todos os seus afluentes. Apertei mais, os dedos de uma das mãos já se encontravam. Engasguei, tossi, pensei que ia sufocar, ainda sem efeito. Precisava sair dali. Fiz força para levantar uma das pernas, ajudei com os braços. Quem sabe a outra vai. Outro esforço em vão. Apoiei as mãos nos joelhos para respirar. À minha volta, o céu mudava de cor. Azul claro, amarelo, vermelho, preto. E tudo de novo. Fechei os olhos, preto. Abri, preto. Sem cenário, era tarde demais. Eu já não existia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008