sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Sexta-feira romântica
O espaço entre a lua e a terra está apertado. É lá que mora o meu amor por você.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Beautiful boy
O dedinho chegou até a calda do bolo. Tímido. Lento. Voltou um pouco mais pesado. Equilíbrio. Direto para a boca. Olhos na outra mão, amarrada à da mãe. Distraída. Quem sabe outra vez. Ousadia. A mãe conversa. O dedo sobe mais animado. Visão fixa na voz. Cálculo mal-feito. Um rasgo na cobertura. Estrago. Palmadas. Gritos. Sacudidas. Vergonha. Desculpe, esse menino é tão levado. Em casa, castigo. Com gosto de açúcar.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
De volta
Meus cabelos tão longos emaranharam-se na cauda do vento que passava. Sem que ele percebesse, tirou meus pés do chão. Encostei a mão na lua, revirei a via láctea, peguei um pedacinho de mercúrio. Quase perto do sol, minha carona se deu conta de mim. Faça o que quiser, mas não corte o meu cabelo, implorei. O vento amarrou uma tromba e tomou outro rumo. Vais me atrasar anos-luz. Mas foi a viagem de volta que valeu toda a minha vida. Vi minha casa e sorri de saudades. Quando meus pés acharam o equilíbrio, agarrei mais uma vez o vento e agradeci. Pode deixar, corto o cabelo hoje mesmo. Daqui não quero sair mais não.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Retrato
Preto no branco. Sombra. Reflexo. Era uma foto que segurava, mas via-se como em um espelho, em outro corpo. Certeza de que aquela alegria era sua. A mão que segurava era sóbria, taciturna. Como é a mão que segura hoje. Tão oposta à sua própria. Talvez seja culpa do tempo. Que transforma as mãos do mesmo jeito que faz com as árvores. Esculpe veias e rugas por onde passeiam os dedos da menina, que tenta decorar aqueles sulcos para depois comparar com os seus. Ela sabe que aquela foto vai acontecer de novo no futuro. Quando uma outra menina se verá refletida.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Acontece
Não venho justificar minha ausência. Não parei de trabalhar, só mudei o escritório de lugar. Temporariamente. Mas eu volto sempre. Cada vez mais, até voltar toda. Não vai demorar.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Aos homens de boa vontade
- Que é isso?
- Nossas fotos.
- Mas estão rasgadas.
- Eu sei.
- Foi você quem fez isso?
- Foi sim.
- Você vai se separar de mim?
- Claro que não.
- Então por que você rasgou nossas fotos?
- Achei melhor.
- Não tô entendendo nada.
- Pensa bem, assim eu já poupo uma etapa.
- Do que?
- Do casamento.
- E que etapa seria essa?
- A da raiva.
- Como assim?
- Vai ter um dia em que você vai aprontar alguma e eu vou ficar morrendo de raiva de você. Daí vou cometer atos impensados, tipo atacar as nossas fotos.
- E aí?
- Se nessa hora eu der de cara com as fotos já rasgadas, vou me lembrar de agora.
- E como é que isso vai ajudar?
- Porque vou me lembrar que eu gostaria de rasgar as fotos mas não devo.
- Mas elas já estarão rasgadas!
- O que vai me impedir de rasgá-las num ataque de raiva.
- Vamos dizer que eu concorde ou sequer entenda essa lógica absurda.
- Com o tempo você vai ver que faz todo o sentido.
- Ok, suponhamos que sim. Tem mais alguma coisa que você distruiria num ataque de raiva?
- Sim, várias coisas.
- E você já destruiu alguma outra previamente?
- Por enquanto, só as fotos.
- Posso saber quais são os outros itens, por favor?
- Hum, acho melhor não.
- Por quê?
- Porque aí você iria me impedir.
- Nem me passou pela cabeça fazer isso. Juro.
- Tá, mas acho melhor não falar, não.
- Certo. Então preciso te contar uma coisa.
- O quê?
- A partir de hoje, estou alugando nossa garagem para outra pessoa.
- Por quê?
- As fotos, tudo bem. Mas o carro, não.
- Nossas fotos.
- Mas estão rasgadas.
- Eu sei.
- Foi você quem fez isso?
- Foi sim.
- Você vai se separar de mim?
- Claro que não.
- Então por que você rasgou nossas fotos?
- Achei melhor.
- Não tô entendendo nada.
- Pensa bem, assim eu já poupo uma etapa.
- Do que?
- Do casamento.
- E que etapa seria essa?
- A da raiva.
- Como assim?
- Vai ter um dia em que você vai aprontar alguma e eu vou ficar morrendo de raiva de você. Daí vou cometer atos impensados, tipo atacar as nossas fotos.
- E aí?
- Se nessa hora eu der de cara com as fotos já rasgadas, vou me lembrar de agora.
- E como é que isso vai ajudar?
- Porque vou me lembrar que eu gostaria de rasgar as fotos mas não devo.
- Mas elas já estarão rasgadas!
- O que vai me impedir de rasgá-las num ataque de raiva.
- Vamos dizer que eu concorde ou sequer entenda essa lógica absurda.
- Com o tempo você vai ver que faz todo o sentido.
- Ok, suponhamos que sim. Tem mais alguma coisa que você distruiria num ataque de raiva?
- Sim, várias coisas.
- E você já destruiu alguma outra previamente?
- Por enquanto, só as fotos.
- Posso saber quais são os outros itens, por favor?
- Hum, acho melhor não.
- Por quê?
- Porque aí você iria me impedir.
- Nem me passou pela cabeça fazer isso. Juro.
- Tá, mas acho melhor não falar, não.
- Certo. Então preciso te contar uma coisa.
- O quê?
- A partir de hoje, estou alugando nossa garagem para outra pessoa.
- Por quê?
- As fotos, tudo bem. Mas o carro, não.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Bora
- E se a gente largasse tudo e fosse embora?
- Tudo o quê?
- Tudo, tudo. Trabalho, família, casa, carro. Tudo.
- Meus amigos também?
- Tudo.
- E a pelada do domingo?
- Tudo, já falei.
- Mas e o timão?
- Ah, você pode acompanhar de longe.
- E pra onde a gente iria?
- Sei lá. Pra França, por exemplo.
- Mas eu não sei falar francês.
- Aprende, oras.
- Ah, não. Vai demorar muito e eu vou acabar me dando mal.
- Tá. Tipo Londres, então.
- Muito frio.
- Argentina.
- Deus me livre.
- Itália!
- Não ia dar certo.
- Por quê?
- A gente ia comer muito, você ia engordar...
- Ih, tem esse risco. Espanha, então.
- Pode ser...
- Jura?
- Tem o Ronaldinho, agora o Kaká.
- E o espanhol?
- Ah, é mais fácil de aprender.
- Acho lindo homem falando espanhol.
- Hum. Sei não.
- O quê?
- Depois você se apaixona por um gringo.
- Que bonitinho! Seu bobo, eu só tenho olhos pra você.
- Sei. Até chegar lá.
- Que é isso, meu amor?
- Prefiro fica aqui mesmo. Já conheço a concorrência.
- Que horror! Você não confia em mim?
- E por que você quer ir, afinal?
- Eu preciso experimentar coisas novas.
- É disso que eu tô falando.
- Tudo o quê?
- Tudo, tudo. Trabalho, família, casa, carro. Tudo.
- Meus amigos também?
- Tudo.
- E a pelada do domingo?
- Tudo, já falei.
- Mas e o timão?
- Ah, você pode acompanhar de longe.
- E pra onde a gente iria?
- Sei lá. Pra França, por exemplo.
- Mas eu não sei falar francês.
- Aprende, oras.
- Ah, não. Vai demorar muito e eu vou acabar me dando mal.
- Tá. Tipo Londres, então.
- Muito frio.
- Argentina.
- Deus me livre.
- Itália!
- Não ia dar certo.
- Por quê?
- A gente ia comer muito, você ia engordar...
- Ih, tem esse risco. Espanha, então.
- Pode ser...
- Jura?
- Tem o Ronaldinho, agora o Kaká.
- E o espanhol?
- Ah, é mais fácil de aprender.
- Acho lindo homem falando espanhol.
- Hum. Sei não.
- O quê?
- Depois você se apaixona por um gringo.
- Que bonitinho! Seu bobo, eu só tenho olhos pra você.
- Sei. Até chegar lá.
- Que é isso, meu amor?
- Prefiro fica aqui mesmo. Já conheço a concorrência.
- Que horror! Você não confia em mim?
- E por que você quer ir, afinal?
- Eu preciso experimentar coisas novas.
- É disso que eu tô falando.
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