quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dia de Glória

Vejo a vizinha chegar em casa no final da tarde. Ela acena para a minha janela antes de entrar. A porta se abre, a mão do marido sai antes dele, agarra os cabelos longos (ele gosta assim) e a joga no chão, arrastando seu corpo pela calçada. Ela implora que ele pare, ela sempre faz isso, mas ele vira seu rosto e esfrega no esgoto, enquanto lhe grita nomes que ferem mais do que os ouvidos. Não sei por quanto tempo mais ela será capaz de aguentar a tortura a que este homem lhe submete todos os dias. Ela, que faz tudo para agradá-lo. O moço da ong aqui de baixo falou que isso é doença, que ele precisa de tratamento, mas ela tem que denunciar. É fácil para o moço falar. Não é ele que vai colocar seu homem na cadeia para passar alguns poucos dias e voltar com uma fúria maior que sua própria força. A vizinha não tem para onde ir. Ela só tem aquela casa onde, para entrar, deixa a dignidade do lado de fora. No mesmo lugar onde hoje ela deixou a vida, aos olhos escondidos de todos nós.

Um comentário:

Paulo Paniago disse...

muito bom texto, mergulha, remexe, provoca. gostei do que li. parabéns.